Estresse agrava risco de Alzheimer
Um estilo de vida estressante pode afetar a memória e agravar consideravelmente o risco de uma pessoa desenvolver mal de Alzheimer, se houver predisposição genética. A descoberta deste novo efeito colateral do nervosismo, já associado a problemas de coração e de pele, ajuda na detecção e combate precoce da doença degenerativa, que atinge cerca de 1,5 milhão de brasileiros.
Em um estudo publicado na edição atual da revista Biological Psychiatry, os pesquisadores da Universidade da Califórnia, em San Diego, mapearam o DNA e mediram o nível de estresse crônico de 91 pessoas saudáveis com mais de 65 anos.
Pesquisas anteriores já havia mostrado que uma variante do gene da alipoproteína E, relacionada com o metabolismo de gordura, é um indicador de perigo da perda de memória ligada ao Alzheimer. Também é conhecido que níveis altos de circulação de cortisol, associado com o estresse, prejudicam a memória. Entretanto, este foi o primeiro estudo a mostrar os efeitos graves da associação entre o genotipo de risco e o estresse crônico.
- O cortisol aumenta em resposta ao estresse prolongado e tem um efeito negativo no hipocampo, particularmente em idosos. A região do cérebro é crucial para a memória e é uma área que mostra mudanças patológicas muito cedo no curso da doença de Alzheimer - detalha Guerry Peavy, coordenador do estudo.
Peavy e seus colegas usaram testes de memória e exames neurológicos e neuropsicológicos para mostrar que as pessoas que apresentaram as duas características são mais prejudicadas.
- A descoberta demonstra um novo efeito drástico e permanente que não se sabia estar associado a experiências traumáticas- analisa Peavy.
John Krystal, editor da revista onde o estudo foi publicado e professor de farmacologia na Universidade Yale, acrescenta que, como estes traços podem ser avaliados a qualquer hora, a descoberta torna-se um avanço na identificação precoce de pessoas idosas que ainda não apresentam demência, mas são mais vulneráveis cognitivamente e sempre tiveram uma qualidade de vida comprometida.
- Os dados aumentam a possibilidade de intervenções psicosociais e remédios psicoterapêuticos, que podem aumentar a eficiência das estratégias medicamentosas atuais para preservar a função da memória, completa Krystal.
O mal de Alzheimer é uma doença degenerativa do cérebro que se manifesta inicialmente por alterações da memória curta, de episódios recentes. Estes esquecimentos se agravam com a progressão da doença, que no início pode parecer apenas em pequenas alterações de personalidade e comportamento.
Ivan Okamoto, da Academia Brasileira de Neurologia, conta que estudos já mostraram que pacientes com alguma atividade prazeroza têm menos chances de desenvolver o mal, como os que praticam dança de salão ou algum tipo de esporte.
- Um fator de risco fundamental é a idade. A partir dos 60 anos a taxa de incidência é de 1 a 2%, mas o índice dobra a cada cinco anos. Aos 90 anos, em torno de 40 a 50% das pessoas têm a doença, acrescenta Okamoto.
Segundo o médico, a escolaridade também influencia a evolução do mal. Os mais letrados conseguem compensar melhor as alterações de memória. Por exemplo, se não lembram uma palavra, encontram um sinônimo com mais facilidade.
- Mas os pacientes de alta escolaridade, embora demorem para apresentar o problema, têm um declínio mais rápido. Os melhores mecanimos de compensação disfarçam a dificuldade, que, quando aparece, não tem mais como ser remediada, pondera Okamoto.
Fonte: Cristine Gerk, Jornal do Brasil, 02/09/2007, A30
Marcadores: estresse; memória; Alzheimer

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